RESENHA: Vox – Christina Dalcher | Editora Arqueiro

por Biia Rozante
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Esse é o tipo de livro que veio para causar, dividir e roubar literalmente as tuas palavras. Falar sobre ele me parece algo realmente “perigoso”, arriscado, porque indiretamente acaba envolvendo posicionamentos políticos, religiosos e a criação de modo geral. E não, eu não estou exagerando, essa obra é um verdadeiro LER PARA SABER, entender e compreender, ou melhor, LER para tirar as suas próprias conclusões.

Confesso, pensei muito antes de vir aqui resenhar – na verdade, acho que irei declinar esta palavra… Resenhar, como se pode resenhar esse tipo de enredo? Por essa razão te convido a vir desabafar, tentar no mínimo transmitir um pouquinho do que senti ao longo da leitura.

PERTURBADOR essa palavra foi a melhor que consegui escolher para descrever o que encontrei nas páginas deste livro. Antes mesmo de chegar a um terço da leitura, minha vontade foi de abandonar, mas não de um jeito ruim, muito pelo contrário, o enredo é IMPORTANTÍSSIMO, gera um debate relevante, proporciona reflexões atuais, mas… cutuca, angustia, te irrita, te causa um misto conflitante de emoções, que chega a te deixar sem ar. Juro que fiquei com as mãos suadas, com o coração acelerado e com uma constante inquietação. Jamais pensei que tal leitura pudesse me proporcionar tanto desconforto. Odiar personagens jovens, que são vítimas daquela situação. Mas é impossível se manter neutra e indiferente. É aterrorizante imaginar viver uma realidade como essa.

“Aprendi que, assim que um plano é estabelecido, tudo pode acontecer da noite para o dia.”


VOX nos conta uma história distópica futurística, onde os EUA regrediu, estamos lidando com extremismo e radicalismo, onde as mulheres perderam o direito de falar, ou melhor, perderam os seus direitos de modo geral, sendo minimizadas a donas de casa, recatadas e do lar, o número máximo de palavras que podem ser ditas se limita a 100, marcadas por um bracelete contador preso em seus pulsos, que emite choques, quando a regra é desrespeitada. A protagonista da história é Jean, casada, mãe de três meninos e uma linda menininha – que nossa, desespero. Uma ex-cientista especialista em neurolinguista – distúrbios que afeta a fala e a memória -, mas não qualquer profissional da área, uma com um diferencial, o que atrai a atenção do presidente, já que seu irmão está sofrendo com essa enfermidade e aparentemente precisa de Jean para curá-lo. A principio obviamente ela recusa, porém em decorrência de alguns fatos ela acaba aceitando mediante a algumas exigências… E é aí que o desenrolar da trama se intensifica.

“Você pode tirar muitas coisas de uma pessoa: dinheiro, emprego, estímulo intelectual, qualquer coisa. Pode tirar até suas palavras, mas isso não vai mudar sua essência.”


Consegue se imaginar criando uma criança com essas limitações? Vendo seu filho – homem – crescer com ideologias tão deturpadas? Seu marido sendo conivente com tal situação? Principalmente porque nem sempre foi assim, você já teve voz, você já trabalhou, estudou, mas teve tudo isso arrancado de você de um momento para o outro. Mulheres expostas, ridicularizadas e humilhadas. Membros da sua própria família fora de controle e você presenciando tudo isso com as mãos e a voz atadas. É preciso coragem e lutar com as armas que se têm.

Quero ressaltar que não gostei de tudo que li, não concordo com tudo que foi apresentado, muitas coisas me irritaram, outras me chocaram, principalmente a forma como a religião/fé foi distorcida. Já peço desculpas de antemão, mas pra mim foi muito complicado ver a desconstrução da palavra de Deus e tudo que ele prega da maneira como foi apresentada. Como mencionei lá no início não é uma leitura fácil, ela vai te incomodar de alguma forma. E preciso mencionar que os pontos positivos são muito maiores que os negativos. A escrita da autora é viciante, ela consegue nos envolver e transmitir muito veracidade – acho que é justamente isso que mais dá medo.

“A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.”


Angustiante, revoltante, intenso, denso e atual. VOX é o tipo de leitura que incomoda, que te incita a refletir, a analisar cada detalhe e pensar. Uma fonte de temas para serem discutidos, para alertar e claro oferecer sempre a oportunidade de se olhar por cima do muro e ver além do seu próprio umbigo. LEIA, tire suas próprias conclusões, sinta.

Você tem um VOZ, use-a. Você é LIVRE, pense. Você tem argumentos, DEBATA. Mas lembre-se sempre do respeito, de FALARo mesmo tanto que se está disposto a OUVIR. JUNTOS sempre seremos mais FORTES. É a união que faz a força, por mais clichê que isso possa parecer.

VOX – Christina Dalcher

Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo… Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. …mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.


Ficha técnica:
Distopia | Editora Arqueiro | 2018 | 1º Edição | 320 Páginas | Cortesia | Classificação: 4/5 | Onde encontrar: SKOOBAMAZONSUBMARINO
Até a próxima! Bye.

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Rubro Rosa 27 de novembro de 2018 - 07:18

Que desabafo!!!
Primeira "resenha" que leio deste livro, vinda nesta forma tão visceral. Talvez por trazer realmente todo o contexto do livro nas letras. Todos os tipos de sentimentos que uma leitura assim, provoque em quem o lê.
Uma sociedade que me lembra um pouco(poucão) uma série que vejo, O Conto da Aia. Mas pelo que li, até numa forma mais crua, cruel e dura!
Temos nossa voz..por quanto tempo? Podemos hoje em dia, já dizer tudo que pensamos e sentimos? Sem sermos apedrejados??
Com certeza, é um livro que desejo demais e quero sentir toda esta indignação que você sentiu o quanto antes!!!
Beijo e parabéns por esta resenha incrível!

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Biia Rozante | Atitude Literária 3 de dezembro de 2018 - 12:39

Oooiii. Ainda preciso respirar fundo quando penso nesse livro. kkkkk Acho que o que mais incomoda é o medo, porque realmente ficamos com aquela pulga atrás da orelha pensando que isso pode acontecer. É aterrorizante…
Obrigada por seu carinho e apoio <3 Beijos

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